
Hoje, em meio a uma das eleições mais polarizadas da história recente do país, o Brasil vai às urnas para decidir, em segundo turno, o próximo Presidente da República. Esta data também é lembrada como o Dia Nacional de Defesa da Democracia, em homenagem a Vladimir Herzog, jornalista assassinado durante a ditadura militar. Votar no dia em que o país recorda o que custou conquistar o direito de votar não é uma coincidência qualquer: é um convite à reflexão. E para nós, DeMolays, é também a ocasião de reafirmar que a Ordem, apartidária por princípio, defende a democracia, porque os valores que ela transmite aos jovens só se realizam num regime livre.
Em 25 de outubro de 1975, Herzog, então Diretor de Jornalismo da TV Cultura, foi torturado e assassinado no DOI-CODI, em São Paulo. Sua morte provocou forte reação da opinião pública e marcou o início do processo de redemocratização que levou ao fim da ditadura. Décadas depois, em 2018, a Corte Interamericana de Direitos Humanos condenou o Estado brasileiro pelo caso. Tortura, censura e perseguição por opinião não são “excessos” nem “detalhes” de um período. São a marca do poder sem limites, que é exatamente aquele contra o qual as liberdades nos pedem vigilância. Recordar essa história, portanto, não é apenas olhar para o passado, mas compreender o valor das liberdades que conquistamos e a responsabilidade de preservá-las.
Como DeMolays, aprendemos desde cedo que essa lição não pertence só aos Livros Escolares. No Capítulo, somos ensinados a defender as liberdades civil, política, religiosa e intelectual, a sustentar a Escola Pública como alicerce dessas liberdades e a resguardar a liberdade de consciência de cada pessoa. Esses princípios, quando levados para além da Sala Capitular, tornam-se compromissos com a sociedade em que vivemos. Uma Ordem que forma jovens nesses princípios não pode ser indiferente a quem ameaça a liberdade nem a quem propõe suprimi-la.
Defender a liberdade, porém, exige tolerância. Afinal, de pouco vale reivindicar o direito de expressar nossas próprias convicções se não reconhecemos esse mesmo direito nos outros. É essa a lição que extraímos da história de nosso patrono, Jacques de Molay, vítima do poder sem limites e da perseguição por fanatismo. A Ordem DeMolay nos ensina a reconhecer ao outro o mesmo direito de crer e opinar que reivindicamos para nós. Ensina a evitar o julgamento apressado, concedendo ao “adversário” a cortesia e o benefício da dúvida. É a antítese da lógica que transforma quem pensa diferente em inimigo, mentalidade que se mostra ainda mais perigosa – e, portanto, mais necessária de combater – num país dividido como o Brasil de hoje.
É justamente quando liberdade e tolerância orientam nossas atitudes que o patriotismo ganha seu verdadeiro sentido. No Capítulo, aprendemos a distinguir o “patriotismo de paz” do “heroísmo de guerra” e que, em tempos de paz, a cidadania honrada é a oportunidade de viver essa Virtude. Não é patriotismo a exaltação do conflito, a hostilidade a quem diverge ou a pretensão de que um grupo seja supostamente mais brasileiro que os demais. É o cuidado cotidiano com o país: cumprir os deveres, respeitar as leis, defender as liberdades e participar. Votar é, talvez, a forma mais direta de fazê-lo.
Mas a participação democrática não se resume ao cumprimento de um dever cívico. Ela também revela a quem destinamos nossa preocupação e nosso compromisso. Esse cuidado, aliás, tem destinatários. A formação proposta pela Ordem DeMolay inclui o olhar para os mais vulneráveis, com a solidariedade aos que sofrem e que necessitam. A democracia é justamente o regime em que quem tem menos voz ainda tem voto e em que o voto de cada um pesa igual. Quem vota com esse olhar não escolhe só quem governa; escolhe, em alguma medida, que país quer oferecer a quem tem menos voz.
Considerar as necessidades dos outros, entretanto, não torna a escolha eleitoral mais simples. Quase ninguém encontra um candidato com quem concorde em tudo... e votar sem concordar integralmente não é rendição nem incoerência. É o exercício de quem sabe que a democracia não consiste em achar alguém idêntico a si, mas em ter o direito de escolher, cobrar depois e mudar quando necessário. Essa maturidade política só é possível porque alguém, um dia, lutou para que pudéssemos escolher.
Ainda assim, a importância da escolha democrática não se encerra na urna. Depois dela, é preciso conviver. Apesar de a Ordem DeMolay ser apartidária, seus membros não são; cada um tem suas convicções, seu candidato e sua maneira de expressá-las. É nesse ponto que outras duas Virtudes Cardeais mostram seu valor. Ser companheiro não depende de pensar igual: o companheirismo, junto da cortesia, pede que respeitemos as diferentes formas de pensamento dentro e fora do Capítulo e que o convívio sobreviva à divergência. O companheiro que vota diferente de nós continua sendo um companheiro.
No fim, é justamente essa continuidade entre os princípios que professamos e as atitudes que adotamos que dá sentido à nossa formação. Se a tirania ensina a necessidade da tolerância, o companheirismo é a forma de praticá-la todos os dias – dentro e fora do Capítulo. Que hoje seja um dia de orgulho da democracia, de voto consciente, de respeito às urnas e de cortesia entre quem pensa diferente.
* Este artigo expressa a opinião pessoal do autor e não representa o posicionamento oficial do Grande Conselho Estadual da Ordem DeMolay do Estado de São Paulo.